Operação Hades alcançou relógios de luxo, aeronave, imóveis e fazenda atribuídos ao ex-prefeito de Ananindeua.
Candidato ao Governo do Pará nas eleições deste ano pelo Podemos, o ex-prefeito de Ananindeua Daniel Santos chega à disputa pelo Palácio dos Despachos carregando um histórico de investigações, procedimentos e processos que alcançam sua passagem pela administração municipal, atividades empresariais e patrimônio.
O levantamento feito pelo O FATO identificou ao menos oito frentes de apuração, representações ou processos relacionados ao político ou à administração comandada por ele. Os casos possuem naturezas e fases diferentes e envolvem desde contratos públicos, licitações, saúde, servidores municipais e questões ambientais.
Entre eles, a Operação Hades ganhou maior repercussão pela dimensão do patrimônio colocado sob investigação. A apuração do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) relacionou ao então prefeito bens de alto padrão, incluindo relógios de luxo, propriedades rurais, máquinas, uma aeronave e uma vida luxuosa.
No curso das investigações, medidas determinadas pela Justiça atingiram aproximadamente R$ 500 milhões em patrimônio do conjunto de pessoas físicas e jurídicas investigadas. Somente em relação a Daniel Santos, o bloqueio chegou a aproximadamente R$ 131,85 milhões.
A existência das investigações e medidas cautelares, contudo, não representa condenação. Daniel Santos tem direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência nos procedimentos de natureza criminal.
Operação Hades expôs patrimônio milionário
Deflagrada em agosto de 2025, a Operação Hades investiga suspeitas de fraude em procedimentos licitatórios, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro envolvendo agentes públicos e empresários ligados a contratos da Prefeitura de Ananindeua.
Durante as buscas, investigadores encontraram 15 relógios de alto luxo em um apartamento alugado e relacionado a Daniel Santos, em Fortaleza (CE). Entre as peças estavam modelos de marcas como Rolex, Richard Mille, Cartier e Audemars Piguet. Na época, o MPPA estimou que a coleção poderia valer entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões.
Além dos relógios, as investigações alcançaram outros bens de elevado valor, incluindo uma propriedade rural em Tomé-Açu avaliada em aproximadamente R$ 16 milhões, tratores estimados em cerca de R$ 3 milhões, retroescavadeira, imóveis de alto padrão e uma aeronave avaliada na faixa de R$ 10 milhões.
Segundo a investigação, empresas que mantinham contratos com a Prefeitura de Ananindeua teriam participado do financiamento ou aquisição de alguns desses bens. A origem dos recursos e a relação entre pagamentos das empresas e o patrimônio atribuído aos investigados estão entre os pontos apurados pelo Ministério Público.
A Operação Hades também teve uma segunda fase após a descoberta de documentação relacionada à aquisição de um imóvel de alto valor por uma empresa vinculada a Daniel.
R$ 131 milhões bloqueados
A dimensão financeira da operação também chamou atenção. As medidas patrimoniais determinadas pela Justiça alcançaram aproximadamente R$ 500 milhões, considerando o conjunto de pessoas físicas e jurídicas investigadas. Desse montante, aproximadamente R$ 131,85 milhões foram atribuídos a Daniel Santos nas medidas de bloqueio.
O patrimônio colocado sob alcance da investigação é superior ao valor declarado pelo político à Justiça Eleitoral. A diferença passou a integrar o debate sobre a evolução patrimonial do ex-prefeito e a origem dos bens relacionados pelos investigadores.
O bloqueio judicial possui caráter cautelar e não significa condenação definitiva nem comprovação isolada de origem ilícita dos valores.
Hospital Santa Maria e Iasep
Outra investigação envolve contratos e pagamentos realizados pelo Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Pará (Iasep) ao Hospital Santa Maria de Ananindeua, empreendimento do qual Daniel Santos foi sócio.
O Ministério Público passou a investigar suspeitas de irregularidades, possíveis superfaturamentos e pagamentos milionários relacionados à prestação de serviços hospitalares.
Rastro Zero
Daniel também aparece relacionado à investigação denominada Operação Rastro Zero, protocolada no Tribunal de Justiça do Pará em fevereiro de 2025.
A validade das investigações envolvendo o então prefeito chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em março deste ano, o Supremo permitiu a continuidade das apurações.
Nepotismo e servidores fantasmas
A gestão de Daniel Santos em Ananindeua também se tornou alvo de investigação relacionada à composição do quadro de servidores municipais.
O procedimento apura possíveis casos de nepotismo, servidores fantasmas, acumulação irregular de cargos e problemas envolvendo contratações temporárias.
Desapropriações
Representações encaminhadas ao Ministério Público levantaram questionamentos sobre desapropriações realizadas pela Prefeitura de Ananindeua, incluindo áreas relacionadas à Maternidade Sagrada Família e ao Clube dos Feirantes.
Os questionamentos envolvem possíveis pendências de pagamentos e pedidos para apuração da destinação de recursos públicos.
Ambiental
Daniel Santos também figura em uma Ação Civil Pública relacionada a uma propriedade rural localizada em Ipixuna do Pará.
A ação aponta suposto desmatamento ilegal de aproximadamente 750 hectares e busca reparação dos danos ambientais. Entre as medidas requeridas está a indisponibilidade de aproximadamente R$ 7 milhões em bens para eventual reparação.
Merenda escolar
Daniel Santos também foi citado em uma representação encaminhada ao Ministério Público do Pará (MPPA) que pede apuração de possíveis irregularidades em contratos de merenda escolar durante sua gestão em Ananindeua.
A representação questiona contratos que somam R$ 32,4 milhões, firmados com a MR Comércio e Serviços para fornecimento de carnes à rede municipal.
Entre as suspeitas estão possível superfaturamento e preços acima dos praticados no mercado.
Dados apresentados na denúncia indicam que o município teria contratado peito de frango sem pele e sem osso por R$ 32 o quilo, enquanto levantamentos apontavam valores entre R$ 15 e R$ 20.
A empresa contratada tinha como atividade principal a fabricação de móveis, embora também possuísse atividades secundárias relacionadas ao comércio de alimentos.
Cenário eleitoral
As diferentes frentes envolvendo Daniel Santos ganham novo peso em 2026 porque o ex-prefeito deixou a administração municipal e entrou na disputa pelo Governo do Pará.
Filiado ao Podemos, Daniel aparece entre os principais adversários da atual governadora e candidata à reeleição, Hana Ghassan (MDB).
Os procedimentos envolvendo o candidato estão em diferentes estágios e devem ser analisados individualmente. Investigação, inquérito civil, representação, bloqueio cautelar de patrimônio e ação judicial possuem naturezas jurídicas distintas.
Fonte: O Fato

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