Comunidades ribeirinhas contestam início de dragagem no Rio Amazonas, em Juruti, e cobram estudos ambientais

MPF acompanha o caso e pede anulação da autorização. Semas ainda não se posicionou.Comunidades ribeirinhas contestam início de dragagem no Rio Amazonas, em Juruti, e cobram estudos ambientais — Foto: TV Tapajós/Arquivo

Comunidades ribeirinhas de Juruti, no oeste do Pará, contestam o início das obras de dragagem no Rio Amazonas pela Alcoa e cobram a realização de estudos de impacto ambiental antes da continuidade da atividade.

A Coordenação de Comunidades Diretamente Impactadas pela Dragagem do Rio Amazonas (CDID), que representa mais de 13 comunidades ribeirinhas de Juruti, manifestou preocupação com o anúncio do início dos trabalhos previsto para os próximos dias.

Em nota, a entidade afirmou ser contrária à realização da dragagem neste momento e questionou o processo de licenciamento ambiental, além da condução dos estudos técnicos relacionados à intervenção.

Segundo a CDID, a informação sobre o início da dragagem foi repassada pela Alcoa e contraria o posicionamento das comunidades, que defendem o adiamento da operação. A coordenação afirma ainda que um termo de acordo previa que as comunidades deveriam ser comunicadas com seis meses de antecedência antes do início dos trabalhos.

Outro ponto levantado pela entidade é a forma como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) pretende realizar uma vistoria na área. De acordo com a CDID, a inspeção não prevê a coleta de dados ambientais e sociais anteriores à dragagem, o que, segundo a coordenação, dificultaria comparações técnicas para medir possíveis impactos da retirada de sedimentos do leito do Rio Amazonas.

A entidade também informou que não concorda com a realização da dragagem antes da apresentação, pela Semas, dos resultados dos estudos técnicos previstos para as fases anterior, durante e posterior à intervenção.

A CDID declarou ainda repúdio ao licenciamento ambiental concedido pelo órgão estadual, alegando ausência de respaldo técnico e social suficiente para autorizar a atividade.

MPF acompanha o caso e pede anulação da autorização

O Ministério Público Federal (MPF) informou que acompanha as atividades de dragagem por meio do Inquérito Civil nº 1.23.002.000816/2025-20.

Segundo o órgão, a atuação ocorre devido ao fato de o Rio Amazonas ser um bem da União e pelos possíveis impactos que a atividade industrial pode causar aos povos e comunidades tradicionais.

De acordo com o MPF, após vistorias técnicas e nove reuniões realizadas com comunidades ribeirinhas e indígenas em novembro de 2025, foram identificados impactos socioambientais considerados graves, como contaminação da água utilizada para consumo, redução da quantidade de pescado, assoreamento de igarapés e perda de áreas destinadas à agricultura e criação de animais.

Com base nesses levantamentos, o órgão expediu a Recomendação nº 03/2026, na qual solicita mudanças no processo de licenciamento ambiental.

Segundo o Ministério Público, as dragagens foram autorizadas pela Semas com base em estudos simplificados — Relatório de Controle Ambiental (RCA) e Plano de Controle Ambiental (PCA) — considerados insuficientes para a dimensão da intervenção.

O MPF sustenta que, embora a atividade tenha sido apresentada como uma dragagem de manutenção, houve aprofundamento e alargamento do canal de navegação, situação que exigiria a elaboração de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), além de um Estudo de Impacto Climático (EIC), documentos que, segundo o órgão, ainda não foram apresentados.

O Ministério Público informou ainda que existe uma autorização ambiental vigente emitida pela Semas (AU nº 5882/2025), válida até junho de 2027, permitindo a retirada de até 7 milhões de metros cúbicos de sedimentos.

Entretanto, o MPF recomendou a anulação imediata da autorização por entender que ela foi concedida sem a avaliação dos impactos cumulativos das dragagens realizadas em anos anteriores.

Sobre o anúncio do início dos serviços neste mês de julho, o MPF informou que oficiou a Alcoa para esclarecer o cronograma da operação, uma vez que anteriormente a empresa havia informado que não retomaria a dragagem antes de agosto de 2026.

O Ministério Público reafirma que a continuidade da atividade sem os estudos ambientais considerados necessários viola os princípios da precaução e da prevenção ambiental.

Prefeitura diz que acompanha o processo

Procurada pela reportagem da TV Tapajós, a Prefeitura de Juruti, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), informou que acompanha o processo dentro das atribuições do órgão municipal e mantém diálogo com a Semas, a empresa responsável, órgãos de controle e comunidades potencialmente afetadas.

A secretaria destacou que o licenciamento ambiental da dragagem é de competência da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, responsável pela análise da documentação técnica, pelo cumprimento das condicionantes e pela emissão das autorizações necessárias.

A Semma informou ainda que acompanha a execução dos programas de monitoramento ambiental previstos no processo de licenciamento, especialmente os relacionados à qualidade da água.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) foi procurada e ainda não apresentou posicionamento.

O que diz a Alcoa

Em nota, a Alcoa afirmou que a dragagem no Rio Amazonas está sendo realizada em conformidade com a legislação e possui as licenças emitidas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará, além de atender às demais normas regulatórias vigentes.

A empresa informou que mantém monitoramentos dos meios físico, biótico e socioeconômico e executa programas ambientais destinados à mitigação de possíveis impactos da atividade.

A mineradora também declarou que sua atuação é pautada pelo respeito aos territórios, pelo relacionamento contínuo com as comunidades locais e pela transparência junto aos órgãos competentes, acrescentando que seguirá cumprindo seus compromissos socioambientais.

Fonte: G1 Santarém 

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