Câmara de Trairão paga R$ 7 mil de aluguel e pretende comprar 20 celulares de alto desempenho

Licitação com aparelhos capazes de gravar em 8K chama atenção durante a gestão do presidente Gessé Maranata; população quer saber quem utilizará os equipamentosFoto: Reprodução sociais 

Enquanto moradores de Trairão enfrentam problemas relacionados a estradas, saúde, infraestrutura e outros serviços públicos, uma contratação da Câmara Municipal começa a gerar questionamentos: o Poder Legislativo abriu edital prevendo a aquisição de 20 smartphones com configurações avançadas.

A compra ocorre durante a gestão do presidente da Câmara, o vereador Gessé Souza Pereira, conhecido como Gessé Maranata, que assumiu o comando do Legislativo municipal em janeiro de 2025.

O que mais chama atenção não é apenas a quantidade de aparelhos, mas também o nível das especificações exigidas.

De acordo com a descrição apresentada no edital, os celulares deverão possuir:

  • Processador octa-core de última geração, com velocidade mínima de 3,3 GHz;
  • Memória RAM de 8 GB;
  • Armazenamento interno de 256 GB;
  • Tela Dynamic AMOLED 2X de 6,1 polegadas;
  • Taxa de atualização de 120 Hz;
  • Câmera traseira tripla de 50 MP, 10 MP e 12 MP;
  • Zoom óptico de três vezes;
  • Gravação de vídeos em resolução 8K;
  • Proteção IP68 contra água e poeira.

As configurações são encontradas em aparelhos de alto desempenho disponíveis no mercado. Diante disso, uma pergunta começa a circular entre moradores e observadores da política local:

por que uma Câmara Municipal precisa comprar 20 celulares com capacidade para filmar em 8K?

Quem ficará com os celulares?

Até o momento, não está suficientemente claro para a população quem receberá os aparelhos.

Os celulares serão entregues aos vereadores? Aos gabinetes? Aos servidores? À equipe de comunicação? Cada parlamentar terá um aparelho pago com recursos públicos?

Também não está claro por que todos os dispositivos precisam ter câmera tripla, zoom óptico, tela de 120 Hz, proteção contra água e capacidade para gravações em altíssima resolução.

A Câmara precisa explicar qual estudo técnico demonstrou a necessidade dessas configurações e de que maneira os equipamentos melhorarão, na prática, o atendimento ao cidadão.

Licitar um produto não significa, por si só, que exista irregularidade. Entretanto, quando dinheiro público está envolvido, a administração tem o dever de demonstrar de maneira clara a necessidade, a finalidade e a vantagem da contratação.

R$ 7 mil por mês com aluguel

Outro ponto que provoca questionamentos é o funcionamento da Câmara em um imóvel alugado, com pagamento informado de aproximadamente R$ 7 mil por mês, o equivalente a R$ 84 mil em um período de 12 meses.

O Legislativo já funcionou em prédio próprio, mas a administração afirma que a antiga estrutura apresentou problemas e que atualmente utiliza uma sede provisória.

Em maio de 2026, a própria Câmara informou que o presidente Gessé Maranata acompanhava as tratativas para a construção de uma nova sede. A publicação afirma que o espaço atual não atende adequadamente às necessidades de parlamentares, servidores e população.

A Câmara também declarou que a execução da futura obra dependeria da Prefeitura de Trairão e que o projeto ainda passava por adequações relacionadas à acessibilidade e à segurança.

A justificativa para abandonar o prédio anterior e pagar aluguel precisa estar acompanhada de laudos, documentos, avaliações do imóvel e informações sobre as providências adotadas para evitar que a despesa temporária se transforme em um gasto permanente.

Aluguel e celulares na mesma gestão

Os dois fatos — o pagamento mensal de aluguel e o edital para aquisição de 20 celulares — ocorrem durante a presidência de Gessé Maranata.

A coincidência desperta questionamentos sobre as prioridades administrativas da atual Mesa Diretora.

Não se trata de afirmar antecipadamente que houve crime, favorecimento ou desperdício. Nenhuma dessas condutas pode ser atribuída sem investigação e provas.

A questão é outra: as decisões são realmente necessárias, econômicas e compatíveis com a realidade financeira do município?

A população tem direito de saber:

Quem utilizará os 20 aparelhos?

Por que foram escolhidas configurações tão avançadas?

Os celulares permanecerão registrados como patrimônio público?

Os equipamentos deverão ser devolvidos ao final dos mandatos?

Qual setor apresentou a necessidade da compra?

Existe levantamento demonstrando que equipamentos mais simples não atenderiam às atividades da Câmara?

Quem é o proprietário do imóvel alugado pelo Legislativo?

Houve avaliação para comprovar que R$ 7 mil representa um preço compatível com o mercado local?

Quais documentos determinaram a desocupação do antigo prédio?

Existe prazo concreto para a construção da nova sede?

Gestão precisa prestar esclarecimentos

Gessé Maranata apresenta a construção da nova sede como uma das prioridades de sua gestão e afirma estar buscando recursos e apoio político para o projeto. Segundo publicação institucional, o presidente acompanha as adequações técnicas e as negociações necessárias para viabilizar a obra.

No entanto, transparência não pode se limitar à publicação de editais e atos administrativos.

É necessário explicar, em linguagem acessível, por que o dinheiro será gasto, quem será beneficiado diretamente e quais resultados serão entregues à população.

Em um município onde cada recurso público faz diferença, 20 celulares com gravação em 8K e uma despesa anual de R$ 84 mil com aluguel não podem ser tratados como assuntos sem importância.

Podem até existir justificativas administrativas para as duas despesas. Mas elas precisam ser apresentadas de forma completa, pública e convincente.

A reportagem procurará a Câmara Municipal de Trairão e o presidente Gessé Maranata para solicitar esclarecimentos. O espaço permanece aberto para manifestação e a matéria será atualizada caso uma resposta seja encaminhada.


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