Ações pró-armas de Trump devem favorecer facções criminosas no Brasil

De 1,7 mil fuzis ilegais apreendidos no Sudeste, 54% vieram dos EUA, segundo estudo citado por especialistas em segurança públicaO pacote com 34 medidas para flexibilização de regras para venda de armas do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos (EUA), deve facilitar o acesso a armamento pesado por facções criminosas no Brasil. A avaliação é de especialistas em segurança pública consultados pela Agência Brasil.

Entre as medidas propostas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF, na sigla em inglês), estão a permissão para compra de armas pelos correios; redução de tempo para vendedores manterem os registros das vendas; e uma consulta mais frouxa sobre antecedentes dos compradores.

A flexibilização de Trump preocupa especialistas no Brasil porque os EUA figuram como um dos principais fornecedores de armas para diversas partes do mundo.

No México, 80% das armas apreendidas com cartéis de drogas vêm do vizinho do Norte. No Haiti, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que vem dos EUA a maior parte das armas das gangues que controlam cerca de 80% de Porto Príncipe, a capital.

Das armas de fogo apreendidas em países do Caribe, entre 2018 e 2022, 73% tinham origem nos EUA, segundo dados do ATF reunidos em pesquisa da Universidade de Harvard.

Medidas de Trump preocupam Brasil

No Brasil, estudo publicado no Journal of Illicit Economies and Development, do Reino Unido, aponta que, entre as apreensões de 1,7 mil fuzis ilegais no Sudeste entre 2019 e 2023, 54% tinham origem nos Estados Unidos.

“Isso coloca os EUA na primeira posição como país de origem de fuzis ilegais, um recurso decisivo para sustentar e expandir o crime organizado”, escreveram os pesquisadores brasileiros Bruno Langeani e Natalia Pllachi.

Para Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, as medidas anunciadas pelo governo americano são “bastante preocupantes” por “certamente facilitarem o acesso das facções brasileiras a essas armas”.

“Os EUA têm um problema nessa regulamentação, que já acontecia, que é vender peças semiprontas sem nenhum tipo de controle, sem nenhum tipo de registro. Essas peças são um problema sério para o Brasil”, avaliou.

Segundo Langeani, armas desmontadas são mais fáceis de enviar para outros países por passarem despercebidas pelas alfândegas.

“É muito comum que essas peças sejam enviadas pelos correios. Fica difícil de detectar por não ser uma arma completa. Se você passa num raio-x, e não tem alguém treinado para identificar as partes, fica mais difícil de encontrar e combater”, explicou.

Considerando todas as armas de fogo de estilo militar apreendidas na Região Sudeste, e não apenas os fuzis, os principais países de origem são o próprio Brasil, seguido pelos EUA, Alemanha e Bélgica.

Lobby pró-armas

O cientista social Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LAV/Uerj), destacou que o lobby de armas é forte nos EUA e atua para reduzir a fiscalização da venda dos armamentos.

“Essas agendas de países estrangeiros que querem ampliar seus mercados encontram no Brasil um público interessante. Claro que, alargando a oferta e a facilidade de se adquirir isso nos EUA, evidentemente, as armas vão chegar aqui com mais força”, comentou.

Em setembro de 2025, o governo Trump revogou restrições para exportação de armas de fogo para 36 países, incluindo alguns com histórico de problemas de desvio de armas para o crime, como Paraguai, Colômbia, Suriname, Bolívia e Peru, vizinhos do Brasil.

Ao anunciar a medida, o Departamento de Comércio dos EUA justificou que o fim das restrições permitiria aos fabricantes americanos ampliar a participação em mercados estrangeiros.

“A gente pode dizer que os EUA estão exportando com menos avaliações de risco, e isso traz mais chances de essa arma ser traficada”, afirmou Langeani.

Contradição

O cientista da Uerj Robson Rodrigues destacou uma “contradição” na política de Trump, que, segundo ele, busca combater cartéis na América Latina enquanto flexibiliza o acesso a armas nos Estados Unidos.

“Eles classificam os cartéis como organizações terroristas, mas não fazem o mínimo esforço conjunto para diminuir o acesso às armas dessas organizações. E não é só a questão das armas, mas também em relação à lavagem de dinheiro”, disse.

Para o pesquisador, é necessário combater tanto a oferta quanto a demanda das drogas, incluindo os mercados consumidores nos próprios Estados Unidos e Europa.

“As organizações criminosas domésticas, nos EUA e na Europa, lucram mais que os cartéis no México ou no Brasil. Isso porque eles lucram no varejo, aumentando a margem de lucro”, afirmou.

O diretor do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, avaliou que a política interna americana estaria indo em sentido contrário ao discurso de combate às organizações criminosas na América Latina.

“Se, de fato, o interesse do governo americano for genuíno no enfraquecimento de criminalidade organizada, ele deveria estar indo em uma direção contrária para reduzir e dificultar o acesso das organizações criminosas a armas que saem dos EUA”, declarou.

Entre 2008 e 2024, a indústria de armas de fogo e munições nos EUA aumentou o faturamento em 379%, alcançando US$ 91,7 bilhões, com crescimento de 130% no número de empregos, chegando a 382 mil postos de trabalho, segundo dados da Associação Comercial da Indústria de Armas de Fogo (NSSF).

(Agência Brasil)

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