Pressão do MST sobre ferrovia faz Vale financiar terras para reforma agrária no Pará

Mineradora faz acordo com o Incra para viabilizar compra de áreas para reforma agrária reivindicadas pelo MST; no maior acampamento de trabalhadores sem terra do país, milhares de famílias seguem à espera de loteO maior acampamento de trabalhadores rurais sem terra do Brasil está montado a menos de 3 km da Estrada de Ferro Carajás, operada pela Vale. Com mais de 5 mil famílias, o Terra e Liberdade pressiona um dos principais corredores logísticos do país, que transporta grãos, celulose e principalmente minério de ferro do Sudeste do Pará até o porto de São Luís (MA).

Nos últimos anos, famílias ligadas ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) bloquearam diversas vezes a linha férrea para abrir negociação com a mineradora e com o governo federal. A estratégia surtiu efeito: por meio de um acordo de cooperação técnica, a Vale vem repassando recursos para que o Incra, órgão federal responsável pela reforma agrária, compre áreas na região e faça o assentamento de famílias sem terra.

“O mais eficaz é parar a ferrovia”, resume o dirigente estadual do movimento, Pablo Neri. Segundo ele, a expansão de grandes empreendimentos de mineração na região de Carajás atrai trabalhadores que acabam não sendo absorvidos pelo mercado local e passam a integrar ocupações por terra.

A pressão do MST levou à abertura de uma frente de negociação. O diretor de Relações Institucionais da Vale, Kennedy Alencar, assumiu o cargo em 2 de dezembro de 2024 e, três dias depois, já estava em Carajás para tratar da desinterdição da ferrovia, então bloqueada por acampados do Terra e Liberdade.

Alencar disse que o modelo foi formalizado em um ACT (Acordo de Cooperação Técnica) entre a Vale e o Incra, com repasse de 33 mil hectares para efeito de reforma agrária. Um dos exemplos citados é a fazenda Aquidauana, onde está localizado o acampamento, em que a Vale atuou como “interveniente compradora”, repassando recursos para viabilizar a aquisição da área pelo órgão federal.

O Incra confirmou que há negociação em curso para a destinação à reforma agrária da área ocupada pelo Terra e Liberdade, mas não há prazo definido para o assentamento de famílias. O acordo ocorre no âmbito da Câmara de Conciliação Agrária, com participação de órgãos federais e diálogo com os movimentos sociais.

A disposição da Vale de comprar terras para a reforma agrária acompanha a mudança na gestão da companhia, em tentativa de reposicionamento após os desastres de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Para a CPT (Comissão Pastoral da Terra), a medida é limitada, ocorrendo principalmente quando há prejuízo imediato para a mineradora.

O acampamento funciona como uma cidade organizada, com mais de 5 mil famílias distribuídas em lotes de 200 m², infraestrutura improvisada, escola, controle de acesso e divisão territorial em 11 distritos. A vida diária é marcada pela espera da destinação das terras, produção de alimentos e organização coletiva.

O conflito fundiário continua. Em 1º de maio de 2026, cerca de mil famílias ocuparam área vizinha destinada ao Projeto de Assentamento Maria Glória, ainda não implementado pelo Incra. A autarquia acompanha a ocupação para resguardar a vida e integridade das famílias.

Fonte: Repórter Brasil

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