Autismo em adultos: sinais do TEA podem passar despercebidos por anos

A realidade, que antes passava despercebida, hoje ganha visibilidade, especialmente durante o Abril Azul, período dedicado à conscientização sobre o autismo.Foto de Mateus Nina

Mesmo com o avanço das informações sobre diagnóstico, muitas pessoas ainda descobrem o Transtorno do Espectro Autista (TEA) apenas na vida adulta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 70 milhões de pessoas no mundo estão dentro do espectro, muitas delas sem diagnóstico na infância. A realidade, que antes passava despercebida, hoje ganha visibilidade, especialmente durante o Abril Azul, período dedicado à conscientização sobre o autismo.

Com o acesso mais amplo à informação, cresce também o número de adultos que passam a se identificar com características do espectro e buscam avaliação especializada. Diferente do que muitos ainda pensam, o autismo não é uma doença, mas uma neurodivergência, ou seja, quando pessoas cujo cérebro funciona, aprende e processa informações de maneira diferente do considerado “padrão” (neurotípico).

O médico psiquiatra Arthur Silva pontua que o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, obrigatoriamente as dificuldades apresentadas pelo indivíduo já estão presentes desde o nascimento. Entretanto, por se tratar de um quadro que impacta o desenvolvimento do indivíduo, diferentemente de quadros depressivos ou ansiosos nos quais o indivíduo apresenta uma quebra de um funcionamento previamente saudável, as dificuldades relacionadas ao autismo podem ser facilmente confundidas com a própria personalidade da pessoa.

“Com o seu ‘jeito de ser’, com dificuldades consideradas dentro do padrão da normalidade porque ‘sempre foi assim’ ou fruto de falta de vontade do indivíduo, demorando muitos anos para serem reconhecidas como desvios da normalidade. Normalmente, esse reconhecimento acaba acontecendo em momentos em que a exigência social sobre o indivíduo fica maior, como na vida adulta, diante das necessidades de socializar mais, permanecer em um emprego ou manter um relacionamento fixo”, explica Silva.

Há sinais de autismo que costumam passar despercebidos na infância e adolescência. O psiquiatra informa que o quadro é definido por três pilares, que incluem a dificuldade de comunicação e socialização, o comportamento rígido nas rotinas e interesses restritos. “Essa falta de percepção de dificuldades reais em se comunicar, em manter vínculos de longa data, de modificar focos de interesses ao longo do tempo e de lidar com modificações da rotina com muito sofrimento podem fazer com que muitos diagnósticos sejam perdidos na infância e adolescência.”

O diagnóstico em adultos é feito de forma semelhante às crianças, a partir de análise clínica, mas considerando o histórico de desenvolvimento do indivíduo desde a infância, correlacionando dificuldades atuais com comportamentos de quando era criança, buscando correlacionar as queixas com os sintomas principais do TEA. Ainda conforme Arthur Silva, trata-se de uma análise minuciosa e que muitas vezes pode ser enriquecida com o auxílio de relatos de familiares e avaliações multidisciplinares, como exemplo da testagem neuropsicológica.

“Entretanto, o diagnóstico não se vale de qualquer exame de imagem, laboratorial ou qualquer ferramenta subsidiária de forma obrigatória, sendo a avaliação do clínico treinado o mais importante e muitas vezes o suficiente para o diagnóstico ser firmado.”

O diagnóstico com a complexidade do TEA depende muito da gravidade do quadro e níveis de suporte, sendo muito mais complexos de diagnosticar os pacientes de nível 1 de suporte, que acabam possuindo muito mais fatores de confusão e/ou comorbidades, dependendo de análises mais longitudinais. “Muitas vezes o diagnóstico pode levar meses ou até mesmo ser uma construção gradual em pacientes que já são acompanhados há anos. É impossível precisar um tempo padrão para todos os pacientes”, explica o especialista.

“À luz dos conhecimentos atuais, o autismo não tem cura. Assim sendo, o diagnóstico permite uma compreensão muito maior acerca das dificuldades e necessidades dos indivíduos, auxiliando no desenvolvimento de estratégias de adaptação e inclusão dessas pessoas nos meios sociais, direcionando ações que valorizem suas qualidades e lhes permitam uma vida mais ordenada, com expectativas mais realistas acerca das suas competências e maior proporcionalidade nas exigências sociais sobre o indivíduo.”

A recomendação do especialista para quem desconfia que pode ser autista é buscar informação e qualidade de vida. “O diagnóstico não muda as dificuldades que você tem ou teve a vida inteira, mas pode direcionar cuidados mais adequados às suas necessidades. O importante é procurar uma avaliação com um profissional capacitado e estar disponível para ouvi-lo e receber as orientações dele. Não estamos atrás de rótulos, mas de cuidado e amparo na saúde e na vida social.”

Para o psiquiatra, a investigação do diagnóstico de autismo precisa, antes de mais nada, ser uma busca por um meio de viver melhor ou de cuidar mais adequadamente de uma pessoa com necessidades e dificuldades diferentes da maioria da população. “Diversos indivíduos buscam os atendimentos apenas querendo ratificar suas suspeitas e fecham-se às possibilidades de outros diagnósticos e outras intervenções que podem alcançar sua melhoria de saúde e de vida”, conclui.

(Com Diário do Pará)

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